Braços abertos?
A hospitalidade avaliada por quem nunca precisou dela
Neste sábado eu estava eu numa roda de conversa aqui em Londres com pessoas que eu tinha acabado de conhecer, amigos de amigos. Éramos uns três ou quatro brasileiros e dois portugueses, e o assunto era Portugal. Depois de amenidades, belezas e trocas de experiências curiosas, começou-se a falar de mudanças na sociedade portuguesa nos últimos anos, como o aumento impressionante de imigrantes da Índia e do Paquistão no país.
Não vou entrar no mérito de se esse aumento é verdade ou percepção pessoal porque não tenho nenhum dado e nem vou pesquisar porque não é o ponto do texto, mas já tinha ouvido falar nisso através de outros portugueses relativamente próximos a mim, o que indica uma sensação coletiva.
Aí o assunto foi pra direita portuguesa, alguém mencionou o Chega (se não sabe o que é, procure saber), e a portuguesa da rodinha começou a dizer que quando ela ainda morava em Portugal, há 20 e tantos anos, os portugueses eram muito receptivos e abertos aos estrangeiros, o que em teoria estaria mudando nos últimos anos.
Foi aí que eu não resisti e quis pôr a pulguinha atrás da orelha dela, que é a mesma que eu quero pôr na de vocês: “Olha, você já parou pra pensar que você diz isso sendo portuguesa e não estrangeira em Portugal? Não sei se o que você disse é verdade ou não, mas acho complicado falar de como um estrangeiro é recebido e tratado em um país não tendo essa experiência, não sendo estrangeiro mas sim um nativo. Talvez alguém de fora tenha outra percepção.”
Os brasileiros concordaram na hora, ela continuou insistindo que poderia afirmar com todas as letras que antes os portugueses recebiam imigrantes de braços abertos.
Sei lá. Então tá.
Eu lembrei de quando morava na Argentina e ouvia argentino falando que eles eram um povo muito “amiguero”, ou seja, amigável e que valorizava muito as amizades. Não que eu discordasse totalmente: eles realmente são bastante ligados aos amigos, comemoram sempre o Dia do Amigo no dia 20 de julho, fazem questão de encontrar a turma periodicamente, mas a meu ver eles tendem a só considerar “amigos” quem eles conhecem desde sempre do bairro, do colégio, gente com quem eles cresceram. Chega lá sendo de outro país e tenta fazer amizade com eles, pra você ver! Não é bolinho.
É fácil falar que a casa é confortável quando ela é a sua. Que um povo é acolhedor quando você faz parte dele, quando seu sotaque, sua pele, seu nome, sua origem e sua classe social não causam nenhum estranhamento. A percepção de acolhimento e receptividade muitas vezes é um privilégio de quem nunca teve que entrar numa sociedade com uma bagagem diferente da de quem já fazia parte antes. Mas e quem vem de longe, quem é diferente, será que é mesmo bem-vindo?


O que mais nos fascina em outras culturas é também o que primeiro rejeitamos! Acho que a dificuldade é geral. Talvez menos no Brasil. Somos curiosos por natureza e a novidade sempre nos atrai.
Aqui os franceses nem tentam disfarçar. Ô povo…