O português
Quando uma língua em comum pode ser a ponte para um romance... ou não.
Teve aquela vez em que saí com um português.
Aplicativo e aquela coisa toda. Sabem como é.
Eu não me lembro muito bem de tudo, já deve fazer bem uns cinco anos que isso aconteceu, mas em um date ele disse algo que me marcou muito, e é por isso que estou contando a história aqui.
Estávamos em um pub em Londres. Iluminação baixa, mesa pequena para dois, ele sentado à minha frente. Ambiente propício para conversas íntimas, para conhecer alguém melhor. Podia ser o início de um romance, ou pelo menos de uma noite gostosa. Falávamos português, é claro, afinal nossa língua em comum já era algo que nos conectava de alguma forma.
Era? É, né? Será? Bem…
A certa altura, ele fala aquilo que me marcou. A pergunta que, olhando pra trás, acredito ter definido o nosso futuro. Com olhos curiosos e a cabeça levemente inclinada para o lado, ele solta:
“Oqtlvwvprlndrsh?”
Meu Deus. O que esse moço disse? Por que ele começou a falar russo do nada?
Dei uma risadinha nervosa. Desculpa, o quê?
“Oqtlvwvprlndrsh?”
Mas meu Senhor. Se este rapaz estivesse falando dinamarquês comigo, ou swahili, talvez eu entendesse melhor. Oi?
“Oqtlvwvprlndrsh?”
Será que posso levantar e ir embora? Será que eu sou surda? Burra? Ambos? Comecei a rir. Olha, desculpa mesmo, eu não estou entendendo.
“O qt lvwv pr lndrsh?”
Comecei a suar frio. Nem ele falando um pouco mais devagar estava ajudando. Socorro.
“O qt lvwv pr lndrsh?”
Não lembro quanto tempo passamos nisso. Pode ter sido dois minutos, pode ter sido duas horas, mas duas horas com o peso psicológico de dois meses. Sei lá.
Até que ele, já perdendo a paciência, fala beeem devagar, palavra por palavra:
O. QUE. TE. LEVOU. A. VIR. PARA. LONDRES?
Aaaaaaaahhhhhh! O que me levou a vir para Londres? Bom, eu sempre quis morar na Europa e aí eu…
(Se você estiver chegando aqui agora e também tiver essa dúvida, leia aqui).
Aquela noite terminou com uma bitoquinha trocada no ponto de ônibus e números de whatsapp trocados. Mas aí eu viajei logo depois, e ele também. Acho que percebemos que a comunicação não fluía muito bem (claramente) e então ficou tudo por isso mesmo.
Realmente me marcou isso de simplesmente não entender algo tão básico dito supostamente na minha língua - tá, eu sei que tem muitas diferenças, mas mesmo assim ainda é a mesma língua em teoria. Num tinha futuro possível entre nós se nem uma pergunta básica dele eu conseguia entender, né? Imagina uma DR com essa pessoa?
É, nem sempre “falar a mesma língua” garante que a gente vai se entender bem…

